Dr. Liberdade
Todos os artigos

Você assiste a série e depois quer viver aquela vida?

·2 min de leitura·Dr. Liberdade

Tem algo estranho acontecendo na nossa cabeça quando a gente consome histórias — especialmente as que chegam em série, aquelas que a gente devora em uma noite. A ficção científica faz isso melhor que ninguém: mostra um futuro tão vívido, tão detalhado, que a gente começa a confundir o que é possível com o que é real.

Mas o problema não é a ficção. O problema é que a gente está perdendo a capacidade de separar duas coisas: o que nos inspira e o que nos escraviza.

Pensa bem: quando você termina de assistir um filme sobre um herói que enfrenta tudo sozinho e sai vitorioso, você quer ser como ele. Quando você scrolleia o feed e vê histórias de pessoas vivendo vidas 'perfeitas' — viagens, corpo, relacionamentos — você quer aquilo também. A gente consome narrativas o tempo todo, e cada uma delas nos mete uma ideia na cabeça sobre como deveríamos viver.

O que mudou não é a ficção. É a velocidade e a quantidade. Antes, você via um filme de ficção científica, saía do cinema e voltava à realidade. Tinha limite. Tinha intervalo entre a fantasia e a vida real. Agora? Agora você desliza entre cinco realidades diferentes em um minuto — a série do herói solitário, a história de quem ficou rico rápido, a foto de alguém que parece não ter nenhuma dúvida, a entrevista com gente que 'fez diferente'.

E o seu cérebro não consegue acompanhar. Ele pensa que tudo é igualmente possível, igualmente real, igualmente esperado de você.

A ficção sempre vendeu sonhos. O que a gente está vivendo agora é uma confusão entre sonho e obrigação. Você não apenas quer aquilo — você sente que *deveria* querer. E quando não consegue, fica com a sensação de estar fazendo errado.

A questão real é: quantas histórias você está deixando que escrevam sobre você antes de perceber que está vivendo um roteiro que não é seu? Quando é que você para para criar a própria narrativa em vez de copiar a do próximo?

ficção científicanarrativa pessoalautossabotagemautocontrole