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Por que você paga caro para se entediar?

·1 min de leitura·Dr. Liberdade

Tem algo estranho acontecendo: você paga uma assinatura de streaming, outra de música, compra um videogame, enche o celular de aplicativos — e ainda assim reclama que está entediado.

O tédio é hoje a doença de quem tem muitas opções. Parece contraditório, mas não é.

Antes, quando havia pouco, a gente se mexia — invadíamos o bairro inteiro, inventávamos brincadeiras, conversávamos de verdade. O tédio era um fogo que te empurrava para fazer algo. Agora? Agora o tédio virou cômodo. Você o alimenta.

Cada vez que sente aquele vazio, em vez de enfrentá-lo, você abre o streaming. Rola. Rola mais. Assiste cinco minutos de dez coisas diferentes e continua vazio. Paga para não se mexer, em outras palavras.

E aqui está o núcleo do problema: você delegou sua capacidade de se ocupar a máquinas que lucram com sua passividade. Netflix não ganha dinheiro se você terminar de assistir a série — ganha se você ficar scrollando sem fim. TikTok não quer que você saia do app — quer que você role uma hora, duas, a noite toda.

O tédio genuíno — aquele incômodo que força você a sair do sofá — foi sequestrado. Transformaram ele num serviço que você consome, não num sinal que você ouve.

Por isso você pagou a assinatura: não para combater o tédio, mas para domesticá-lo. Para torná-lo confortável. Para não precisar se responsabilizar por fazer nada de verdade.

A questão não é se você tem acesso a entretenimento — é se você ainda sabe o que fazer quando ninguém está oferecendo nada na tela. Quando está só com o silêncio e com você mesmo.

Tédio não é fraqueza. É um aviso. Mas aviso só funciona se você ouve — e você meteu uma assinatura no ouvido.

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